Stranger Things 5ª Temporada episódio 07: “O Abismo” aprofunda o caos, mas expõe o maior problema da série na reta final
A quinta temporada de Stranger Things caminha para sua conclusão com o sétimo episódio, intitulado O Abismo, e a sensação que fica é agridoce. Há ideias interessantes, conceitos ambiciosos e momentos emocionalmente relevantes, mas tudo isso é diluído por um problema que a série já não consegue mais esconder: o excesso de personagens e a falta de consequências reais.
Exibido pela Netflix, o episódio tenta elevar as apostas ao apresentar um novo plano de Vecna e revelar a verdadeira natureza do conflito entre mundos. No entanto, mesmo com revelações importantes, o capítulo acaba funcionando mais como uma longa preparação do que como um avanço decisivo da narrativa.
O retorno de Max e o falso senso de alívio
O episódio começa resgatando Max de volta ao mundo real, em uma cena que subverte expectativas ao deixar claro que não foi a música que a salvou, mas sim o vínculo emocional com Lucas. A escolha é coerente do ponto de vista temático, reforçando a importância das conexões humanas, algo que sempre foi um pilar da série.
Ainda assim, a sequência perde impacto rapidamente. Max está consciente, relativamente bem e sem grandes consequências físicas ou psicológicas aparentes. Para uma série que constantemente flerta com o perigo extremo, a recuperação quase imediata da personagem contribui para um problema recorrente: a sensação de que ninguém realmente corre riscos.
Holly, Vecna e a criação do Abismo
Enquanto Hawkins tenta se reorganizar, a trama avança para um núcleo mais sombrio ao acompanhar Holly perdida em uma dimensão desconhecida. Diferente do Mundo Invertido tradicional, o episódio apresenta um novo conceito: um espaço que não pertence totalmente a nenhum dos mundos já conhecidos.
É aqui que Dustin introduz a ideia do Abismo, um reino primordial de caos absoluto, de onde surgiram Vecna, os Demogorgons e todas as forças que ameaçam Hawkins. O conceito é interessante e adiciona uma camada mitológica relevante à série, ajudando a explicar a origem do mal de forma mais ampla.
No entanto, a revelação chega tarde demais. Com apenas um episódio restante, a sensação é de que a série tenta expandir demais seu universo quando deveria estar se concentrando em fechar arcos narrativos.
Eleven, Vecna e o plano impossível
O plano traçado pelo grupo é ambicioso: esperar que os mundos estejam prestes a colidir para que Eleven entre na mente de Vecna e interrompa o processo de fusão entre realidades. Para isso, o laboratório no Mundo Invertido será usado como ponto de amplificação psíquica, com Max e Kali desempenhando papéis fundamentais.
Narrativamente, tudo faz sentido. O problema não está no plano em si, mas na execução. O episódio gasta tempo excessivo explicando conceitos que poderiam ser simplificados, enquanto personagens importantes continuam sem desenvolvimento significativo.
O espectador entende o que está em jogo, mas não sente urgência. E, em uma história que ameaça o fim do mundo, isso é um erro grave.
O peso da culpa de Will e a repetição de arcos
Um dos momentos mais emotivos do episódio envolve Will, que finalmente verbaliza sua culpa por ter sido usado como “espião” de Vecna no passado. A conversa com Joyce é bem interpretada, mas sofre por ser excessivamente familiar.
A série já explorou esse mesmo diálogo emocional em temporadas anteriores, especialmente na segunda. O sentimento é legítimo, mas a repetição enfraquece o impacto dramático. Stranger Things sempre foi melhor quando evoluía seus personagens, e não quando os fazia revisitar os mesmos conflitos.
Will se assume e a importância do momento
Em meio ao caos, o episódio encontra espaço para um dos momentos mais importantes da temporada: Will se assume gay para o grupo. A cena é tratada com sensibilidade, sem dramatização exagerada, e reforça a ideia de pertencimento que sempre definiu a série.
É um dos poucos momentos genuinamente novos do episódio, e talvez por isso mesmo se destaque tanto. Ainda assim, fica a impressão de que essa revelação merecia mais tempo e mais consequências emocionais no grupo.
O problema estrutural: muitos personagens, pouco impacto
Talvez o maior erro de O Abismo esteja fora da trama em si. A série simplesmente carrega personagens demais para a reta final. Steve, Jonathan, Lucas, Nancy, Murray, Mike, Hopper, Erika e até Max orbitam a narrativa sem influência real nos acontecimentos.
Não há decisões difíceis, não há perdas irreversíveis, não há consequências duradouras. Hawkins está cercada por militares, crianças desaparecem, portais se abrem… e, ainda assim, o mundo segue praticamente normal.
Essa ausência de impacto destrói qualquer ilusão de perigo. Quando tudo parece reversível, o espectador deixa de temer pelo destino dos personagens.
Vecna vence — e o relógio chega ao fim
O episódio termina com Vecna colocando seu plano em prática, usando crianças como receptáculos para amplificar seus poderes e iniciar a fusão entre os mundos. É um gancho forte, mas que chega tarde.
Com apenas um episódio restante, a série se vê diante de um dilema: ou arrisca uma conclusão ousada, com sacrifícios reais, ou recicla soluções já vistas, especialmente envolvendo o possível auto-sacrifício de Eleven.
A sensação geral é que Stranger Things ainda sabe criar momentos emocionais, mas perdeu a coragem de levar suas próprias ideias até as últimas consequências.
Considerações finais
O Abismo é um episódio ambicioso, mas inchado. Ele apresenta conceitos interessantes, como a origem do mal e a expansão do universo da série, mas sofre com ritmo irregular, repetição de arcos e falta de impacto emocional real.
Não é um episódio ruim, mas está muito distante da excelência da primeira temporada. Se o episódio final não ousar romper com esse padrão de segurança excessiva, a despedida de Stranger Things pode acabar sendo mais confortável do que memorável.
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